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MEC quer analfabetizar Brasil com literatura em quadrinhos PDF Imprimir E-mail
03 de fevereiro de 2009

Por Janer Cristaldo (*)

Devo confessar que boa parte de minha alfabetização passou pelas revistas em quadrinhos. Não que nelas tenham aprendido a ler. Aprendi em cartilhas. Revista em quadrinhos nunca fez parte De meu currículo escolar. Era nosso momento de prazer. E, obviamente, desenvolvia a capacidade de ler. Em meus dias de guri, fui cultor de Pato Donald, Superman, Batman, Cavaleiro negro, Zorro, Mandrake e mais alguns “clássicos” que meus contemporâneos talvez já nem lembrem: Davi Crocket, Tim Holt, Hopalong Cassidy, Nyoka, Diana, a Rainha das Selvas, etc.

Sou de uma época em que havia cinemas nas cidades do interior. Aos sábados e domingos, havia matinés com seriados. Na última cena, o mocinho era deixado amarrado, entregue a víboras ou leões, ou atado a uma tábua que seria cortada por uma serra elétrica. Mas isto não nos angustiava. Sabíamos que no episódio ele encontraria uma forma de safar-se. Após a matiné, havia um mercado de gibis. Cada piá trazia parte de seu acervo de casa e fazia seus negócios. Trocava-se revistas, emprestava-se ou vendia-se.

Os quadrinhos fizeram parte de minha infância e de minha alfabetização. Cumpriram sua função. Me acompanharam até a adolescência e depois perderam a graça. Passei a preferir a narração escrita. Claro que não estou falando de Mafalda nem de Asterix, revistas que curto até hoje.

Leio no Estadão de ontem:

QUADRINHOS CONQUISTAM ESPAÇO NA LITERATURA ESCOLAR

Em 2007, 14 HQs entraram na lista e, desde então, número de vem aumentando

A adaptação de O Alienista, de Machado de Assis, vencedor do último Prêmio Jabuti de melhor livro didático e paradidático do ensino fundamental ou médio, é uma das 23 histórias em quadrinhos (HQs) que o Ministério da Educação (MEC) distribuirá neste ano para escolas públicas do País. Criado em 1997, o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) ignorou HQs por dez anos. Em 2007, 14 obras entraram na lista. Desde então, o número de HQs vem aumentando. Foram 16 em 2008 e, em 2009, a participação chega a 4,2% dos 540 títulos que deverão chegar às escolas até março.


Bom, aí a história muda de cariz. Quadrinhos para crianças e adolescentes, como lazer para horas vagas, entendo. Quadrinhos como adaptação de literatura para ensino fundamental ou médio, o Ministério da Educação que me desculpe. Isto não é alfabetização, mas analfabetização. Ler é interpretar sinais e palavras. Ver quadrinhos é ver desenhos. Há uma profunda distância intelectual entre ver quadrinhos e ler um livro. Ver qualquer um vê. Ler nem todos lêem.

Em meus dias de magistério, minhas aluninhas de Letras adoravam ler Graciliano Ramos e Clarice Lispector. Não que tivessem especial preferência por estes autores. O que neles gostavam era que seus livros eram fininhos. É óbvio que estas prefeririam ler versões em quadrinhos. Mais fácil de assimilar, para quem não adquiriu o gosto pela leitura. Ocorre que eu ensinava em um curso de Letras, não em um curso de Quadrinhos. E reprovei minhas pupilas em massa. Este terá sido um – entre outros motivos – para minha ejeção do Curso de Letras. Onde se viu um professor de Letras exigir leituras de estudantes de Letras?

Aqui em São Paulo, descobri certa vez uma ruela com um teatro que encenava ad aeternum romances adaptados de Machado. “Não é possível que aquele chato tenha público cativo nos dias de hoje”, pensei com meus botões. De fato, não era possível. As peças eram destinadas a essa massa informe de estudantes que se recusa a ler. Mas eram obrigados, pelos interesses da indústria editorial e das universidades, a ler o Machadinho. Assim, se tinham de prestar provas ou mesmo um vestibular, era só ir ao teatro. Em hora e meia matavam a questão.

Quem assim resolve o problema da leitura, assistindo recitais de autores, está definitivamente perdido para a grande literatura. Jamais será capaz de enfrentar um Cervantes, um Eça de Queirós, um Platão ou um Swift, um Orwell ou Arthur Kloester, um Edgar Allan Poe ou um Fernando Pessoa. Fora da leitura não há salvação. Quem não lê – e não estou falando de literatura técnica – é pessoa desinteressante, que nada entende do mundo e que, a meu ver, sequer deveria abrir a boca.

Mais importante do que a ampliação numérica foi a valorização da linguagem das HQs na última seleção oficial, avalia Waldomiro Vergueiro, coordenador do Núcleo de Pesquisa de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Ele também elogia a inclusão do ensino médio na relação das escolas que vão receber HQs. Este senhor, Waldomiro Vergueiro, merece a comenda de Analfabetizador Geral da Nação, o quanto antes. Não conheço país que tenha chegado a um estágio altamente desenvolvido sem a leitura. Se o Ministério da Cultura quer acelerar o afundamento da nação, está agindo no rumo certo.

São homens de visão, que sabem como chegar onde querem.






(*) Fonte: http://cristaldo.blogspot.com/